Quem atravessa diariamente a entrada principal do campus de Goiabeiras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) pode visualizar uma das obras de arte pública mais simbólicas da Grande Vitória. O mural em mosaico funciona como um cartão-postal da instituição desde 1977. Criada pelo mosaicista Raphael Samú, a obra atravessou distintas conjunturas políticas e transformações urbanas, carregando em suas pastilhas, as marcas da passagem do tempo.
“Após a duplicação da Fernando Ferrari, ele sofreu os impactos”, afirma Rogério Borges, Secretário de Cultura da Universidade Federal do Espírito Santo. A intervenção na avenida e a demolição da passarela alteraram profundamente o entorno do campus, intensificou o fluxo de veículos e aproximou ainda mais o mural da trepidação do trânsito. O sol, a poluição e a vibração do chão aceleraram o desgaste das pastilhas e tornaram visíveis as marcas do desgaste e evidenciaram a urgência de sua restauração.
O processo de restauro não é uma simples limpeza ou a reposição de peças soltas. Trata-se de um processo minucioso, orientado pelo compromisso de preservar fielmente a obra que se consolidou como principal símbolo da Universidade Federal do Espírito Santo. A restauração mobiliza artistas, como Celso Adolfo, também inclui a atuação de pesquisadores e engenheiros. Entre os envolvidos também está o arquiteto Lucas Samú, neto do artista, que participa diretamente do restauro da obra mais significativa de seu avô. “São pessoas que estão efetivamente ligadas a esse painel”, Cirillo define.
O artista e ex-aluno Celso Adolfo recorda com muito carinho do período que estudou na Ufes e viu o mural ser construído, para posteriormente ser o responsável pelo restauro de todas as obras de Raphael Samú, ele afirma que: “O que há de mais belo na obra do Samú é como ele sintetiza a forma humana, através das pastilhas”. Ele também conta que esta não foi a primeira tentativa de intervenção.
Celso e o próprio mosaicista foram chamados duas vezes anteriormente para iniciar o restauro, mas, segundo ele, “o processo nunca andava”. Faltavam recursos e apoio institucional. Em determinado momento, como relata o coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), José Cirillo, “entrou um projeto que pensava em demolir o painel”. A possibilidade evidenciou que, apesar de emblemático, o mosaico não estava imune às dinâmicas de reestruturação urbana e administrativa do campus.
A preocupação, no entanto, não se limitou apenas à integridade material do painel. “É preciso se preocupar com o patrimônio artístico”, afirma Rogério Borges, secretário de Cultura da Ufes. Para ele, preservar as obras presentes na universidade é também preservar a trajetória e os princípios da instituição. Nesse sentido, a Secretaria de Cultura pretende propor o tombamento do mural, medida que formaliza sua proteção e reforça o compromisso da universidade com a manutenção de seu patrimônio simbólico.
O próprio processo de criação reforça esse sentido coletivo. O então reitor Máximo Borgo incentivou a participação de estudantes na execução do mosaico, integrando a obra a um projeto de extensão. Celso Adolfo lembra desse detalhe ao explicar o atual restauro: “Como está lá na plaquinha inaugural do painel, a participação de alunos no projeto de extensão, nós estamos articulando para que tenha alunos e estagiários aqui ajudando no restauro”.
O mural consolidou-se, ao longo de cinco décadas, como símbolo da Ufes. Está na memória afetiva de gerações que passaram pelo campus. Com 50 anos de história, o mosaico não pode ser dissociado do contexto político em que surgiu. José Cirillo e os pesquisadores do LEENA puderam observar “que o painel era, de forma muito inteligente, uma manifestação da perspectiva política do Brasil”. Em plena ditadura militar, Samú articulou imagens que dialogam com ciência, poder e liberdade.
Flash Gordon, herói da ficção científica que enfrenta regimes tirânicos, aparece ao lado da missão Apolo XI e da figura de um cientista ao microscópio. A corrida espacial, símbolo internacional de soberania tecnológica, é ressignificada no interior da universidade como afirmação do conhecimento. No centro, jovens caminham em direção ao nome da universidade, livros nas mãos, como se o saber fosse movimento e promessa. A ciência não aparece como aparato bélico, mas como prática intelectual. E o mosaico traz essa ideia ressignificada de que a luta contra tiranias não acontece só em galáxias distantes, mas também nas salas de aula, nos livros e nos corpos que ocupam a universidade.
A proposta de tombamento e o esforço de restauro indicam que o mural já não é percebido apenas como um elemento decorativo do cotidiano universitário Sua preservação não se resume a conservar pastilhas de vidro, significa reconhecer que arte, ciência e política sempre estiveram entrelaçadas na história da universidade.
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