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Verão e reclusão

O desejo de isolamento que nada contra a maré do lazer nos trópicos.

Quando pensamos em verão no contexto sócio-geográfico brasileiro, onde nos encontramos, depressão e solidão estão longe de serem as primeiras coisas a vir à mente. Apesar disso, este é o caso de uma parcela invisível da população, que escolhe a reclusão enquanto a maioria se refugia do calor nas praias.

Neste contexto, existe Will Ribeiro, moradora do bairro Residencial Coqueiral de Itaparica, em Vila Velha. Ilustradora adulta furry de trinta anos.

Você agora deve estar com a mesma dúvida que eu, em um momento anterior, também tive: O que é furry?

Na forma mais fácil de resumir: são pessoas interessadas em animais antropomórficos, como os personagens dos filmes “Robin Hood” e “Zootopia” da Disney. Pessoas dentro dessa sub-cultura se interessam por imaginar e trazer à vida estes personagens através das maneiras mais antigas que a humanidade conhece para dar vida às suas fantasias: ilustrações e narrativas. Os colocando, assim, em patamar semelhante àqueles que são adeptos de outras subculturas, como entusiastas de RPGs medievais, como D&D, aos mais contemporâneos, como Vampiro: a Máscara.

Com isso posto à mesa, podemos voltar para Will. Dentro dos estereótipos que associamos com ilustradores na sociedade moderna, costumamos pensar em pessoas jovens e criativas, que não têm medo de expor sua arte ao resto da sociedade nos mais diversos espaços. Will, porém, batalhando com a depressão e sendo uma pessoa mais naturalmente introspectiva, prefere distribuir sua arte através dos espaços virtuais onde se encontra com seus clientes, em sites que hospedam arte adulta e erótica, longe das ruas e dos holofotes do Instagram e do (quase) falecido Tumblr, que se empenham em garantir que seus usuários não sejam expostos à visão de um mamilo feminino enquanto navegam entre os milhares comentários de cunho discriminatório que povoam sua grade eletrônica.

Lógico que Will não está sozinha. Muitas outras pessoas congregam da mesma maneira e optam pelo computador como lazer nos dias quentes do verão, onde o ventilador atua como substituto da brisa praiana. Acontece que, mesmo dentro desses espaços alternativos, nosso personagem se sente destoante, em alguns sentidos. Talvez pelas suas próprias circunstâncias.

Will é uma pessoa negra, lésbica, e agênero, identidade que a coloca dentro do espectro transgênero. Esses identificadores apontam uma singularidade relativamente comum, mas tão invisível quanto os atritos que permeiam minorias marginalizadas na sociedade civil brasileira como um todo: Will é minoria dentro da minoria.

A própria constata isso, quando perguntada. Diz ela que, desde sua adolescência, quando começou a frequentar comunidades alternativas, era raríssimo ver pessoas em destaque que não seguissem o padrão da magreza e da branquitude.

Por mais que possa se dizer que o mainstream também nunca fugiu muito disso, essa dissonância entre sua própria identidade e os perfis dos recintos que frequentava é algo que ela só foi perceber mais recentemente, quando começou a se entender melhor. Um processo que, segundo ela, deveria ser feito por mais pessoas dentro da própria comunidade da qual ela faz parte, já que ela mesma nota uma proliferação de ideologias reacionárias nesses espaços, onde você imaginaria que essas seriam rechaçadas.

Mesmo reconhecendo a posição social em que estava encaixada, Will nunca se identificou fortemente com os estereótipos nacionais de lazer, como a popular ideia do pobre que se desloca da periferia para buscar refúgio do calor nas praias, como retratado na série Cidade dos Homens. Havia, talvez, de agradecer à dádiva da tecnologia moderna, proporcionando-lhe essa oportunidade de rejeitar o exterior e encontrar entretenimento dentro da própria casa. Mesmo assim, ela rejeita essa ideia, recordando que, mesmo em sua infância no começo dos anos dois mil, quando ainda não tinha acesso fácil ao entretenimento eletrônico e estava longe de adentrar qualquer subcultura, desejava o conforto do seu lar enquanto frequentava a orla de Itaparica.

Com essa reflexão, ela voltou a pintar uma comissão na qual estava trabalhando. Quando perguntei o que ela faria quando terminasse aquele desenho, respondeu dizendo que iria jogar Baldur’s Gate 3 no computador pelo resto do dia.

Perguntei então se, para ela, fazia diferença passar tanto tempo assim dentro do próprio quarto, especialmente em um dia ensolarado de verão, como era aquele sábado. Me respondeu que não. Estava ali por opção. Se quisesse, podia chamar sua esposa para ir se banhar nas praias de Vila Velha ou Guarapari e, pontualmente, talvez até o fizesse. Por enquanto, porém, o seu quarto lhe agradava mais, e estava tudo bem.

Veja a entrevista completa!

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