“Quando eu estou estranha, quando tenho um dia ruim, eu chego aqui e tudo melhora”. É assim que Marilza da Silva se refere ao que vivencia entre 18h e 20h, de segunda à quinta-feira, na Praia de Camburi. Aos 62 anos, aposentada e atuando como microempreendedora, ela transformou o horário do fim do dia em compromisso fixo. Trabalha na Enseada do Suá e, ao terminar o expediente, caminha até o ponto do Serviço de Orientação ao Exercício (SOE) da Praia de Camburi, onde participa das atividades físicas há mais de sete anos.
O programa, promovido pela Prefeitura de Vitória e que tem como objetivo promover a saúde e as práticas corporais, acontece em orlas e parques por toda a capital, totalizando 15 pontos de atuação com atividades gratuitas pela manhã e noite.
Para Marilza, a rotina no ponto de Camburi é organizada. Primeiro, participa do circuito. Depois, da aula localizada. Na sexta-feira, quando há alongamento, também comparece. Evita apenas o circuito na areia, que costuma exigir mais da coluna. “Eu sei até onde posso ir”, comenta, ao explicar que aprendeu a adaptar os movimentos ao próprio corpo.
Antes de frequentar o programa da Prefeitura, Marilza era aluna de academia. A mudança aconteceu após o diagnóstico de artrose. Segundo ela, os exercícios tradicionais passaram a incomodar. “Era muito peso nas costas, muita coisa forçando o joelho. Eu sentia que não estava me fazendo bem.” No SOE, encontrou outro ritmo. “Aqui você controla o peso, coloca a caneleira que quiser. É tudo no seu ritmo. Para mim, funcionou.”
Segundo ela, o dia a dia é acelerado, mas não desmotiva: “Não é uma rotina cansativa por que já estou acostumada. Seguindo uma rotina sem parar, é tranquilo. Se parar, o corpo enfraquece”. O resultado apareceu na prática. Ela afirma que as dores diminuíram e que o condicionamento melhorou, mais do que isso, incorporou a atividade como parte essencial de seu dia.
Uma rede que se forma
Enquanto conversa com as demais participantes, Marilza explica que os laços criados ali também ajudam a manter a constância. “A gente é uma família aqui. Tem tudo, festa junina, festa de fim de ano, até de carnaval”, conta.
As mais frequentes, aquelas que quase não faltam, ganharam dela um apelido carinhoso: “piolhentas”. São as que estão sempre presentes, faça chuva ou sol. Com o tempo, os encontros deixaram de se limitar ao horário das aulas. Há grupos de mensagens, excursões organizadas entre elas e comemorações ao longo do ano.
A convivência com pessoas da mesma faixa etária também ajuda Marilza a manter a frequência. Muitas já são aposentadas, outras conciliam trabalho e atividade física, mas encontram ali um ponto em comum na semana.
Entre um exercício e outro, o assunto varia: exame, dor no joelho, consulta marcada. “Deixa eu te contar, meu joelho está doendo essa semana, tá?”, comenta uma. Marilza diz que não sente nada. Outra amiga ri e fala: “O meu está crocante, croc croc croc”. As conversas seguem nesse tom, misturando queixas, comparações e risadas.
Até o local de prática é um incentivo a mais no exercício, pois, segundo ela, é uma qualidade de vida que não se encontra em quatro paredes, numa academia. Na beira da praia, com vista pro mar, ouvindo o barulho das ondas e sentindo a brisa e a maresia, ela se sente mais motivada à praticar atividade física.
No verão, quando há recesso de fim de ano ou o tempo fecha, o número de participantes diminui. “Tá faltando gente, isso aqui fica lotado. Hoje, com chuva, fica assim”, observa. Ela, no entanto, mantém a frequência. “Ontem foi puxado, cheguei em casa pingando, não tinha vento, ontem foi demais.” Entre o calçadão e a areia, Marilza repete o gesto que faz há sete anos: alonga os braços, acompanha as instruções do professor e se posiciona ao lado das amigas. É assim que termina o dia. E, para ela, é assim que ele melhora.
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