O dia começa com chuva sobre Vitória. No café, Juninho revela sua cartografia: filho de pais nordestinos, o afeto da mãe alagoana e o silêncio do pai baiano formaram seu solo. Ao migrar para o Sudeste em 1981 e mergulhar em História da UFES, ele descobriu que o cinema comercial era um deserto. No cineclube, encontrou a escola da resistência. Ali, Juninho compreendeu que a cultura é a possibilidade de não ser devorado pelo esquecimento.
Quando fala de Glauber Rocha, sua voz não descreve um diretor, mas uma insurgência. Para Talmon Junior, o cinema glauberiano é a fome que se faz imagem, é o “surtado” que se recusa a ser capturado por tendências. Juninho entende que, na tela, a beleza só tem sentido se houver o rastro do sangue e da urgência.
No controle da cabine, entre computadores e o controle das salas, Juninho opera a logística do invisível. Curar filmes, para ele, é um gesto ético: é escolher quais vozes terão o direito de ecoar no escuro. Manter o Cine Jardins pulsante em uma cidade que tantas vezes fecha os olhos para o sensível é um ato de permanência.
Na parede da bilheteria, o sagrado se manifesta em papel e lápis de cor. Os desenhos do filho, Ian Gabriel, são as relíquias de Juninho. “Um menino que ama a arte”, diz ele, com o olhar de quem vê a continuidade do próprio espanto. O desenho da “Pedra dos Dois” é o lembrete de que a sensibilidade é hereditária.
No fim da manhã, Juninho volta para a poltrona; o lugar onde a vida e a ficção se fundem. Ele fala de antropofagia: a necessidade de mastigar o cinema do mundo — o europeu, espanhol, brasileiro — para nutrir a própria alma. No Cine Jardins, Juninho sabe que, enquanto houver luz projetada na parede, ainda haverá uma chance de nos encontrarmos com o que fomos e com o que ainda podemos ser.
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