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A lenda do coco de Camburi

Com 44 anos de atividade, Valadares é um dos comerciantes mais antigos da orla de Vitória

Enquanto a capital capixaba ainda dorme, e antes que os banhistas ocupem o calçadão, a silhueta de Raimundo de Souza Valadares, de 72 anos, já é parte integrante da paisagem da Praia de Camburi. Morador de Maruípe, o vendedor inicia sua jornada de trabalho, cumprindo o ritual de embarcar no ônibus da linha 731, às 5h20 para assumir seu posto na areia da praia, onde mantém desde 1981 venda de água de coco.

Conhecido na orla como “Valadares”, o baiano de sotaque resiliente transformou a venda de água de coco em um ponto de resistência histórica, se tornando um dos comerciantes mais antigos em atividade na cidade e uma testemunha ocular da evolução urbana e social da Ilha nas últimas quatro décadas.


Nascido em Arataí, no interior da Bahia, Valadares se mudou para o Espírito Santo no final da década de 70, motivado por um novo capítulo familiar. “Na verdade, eu conheci a minha esposa em 1979, vim parar aqui, me casei e vim direto para a praia. Eu sou baiano, o meu sobrenome é Valadares, mas a minha esposa e meus filhos são daqui, são capixabas. Arataí fica perto de Itabuna e Ilhéus, mas foi que fiz a vida”, explica ele.


A Vitória encontrada por Valadares em 1981 não se parecia em nada com a cidade de hoje. Naquela época, a orla era marcada por estruturas rústicas que ditavam o ritmo do lazer local. “Antigamente tinha uns quiosques de madeira na orla da praia e eu peguei um daqueles quiosques. Fiquei 25 anos com um deles. Mas depois que tiraram eles, eu consegui e preferi vender água de coco. A praia mudou muito e a população também, antigamente, eu chegava de manhã e vendia ‘100 e poucos cocos’. Hoje, no verão, eu vendo ‘mil e pouco’. Claro que tem mais trabalho, mas a essência é a mesma.”


A mudança da estrutura fixa para a barraca não diminuiu seu senso de pertencimento. Pelo contrário, reforçou sua disciplina. Mesmo com as pressões do município, a presença de Raimundo é tolerada e respeitada devido a sua disciplina. “A prefeitura quer que a gente tire a barraca, mas como eu chego às 5h30 e fico até 01h da manhã, eles liberam. Sai daqui 01h da manhã e volta às 5:30, então nem vale a pena desmontar. O segredo é a persistência.”


O “Ponto do Valadares” é, essencialmente, um assunto de família. A estrutura de trabalho reflete um modelo de gestão baseado na confiança e na sucessão hereditária, envolvendo dez pessoas da mesma família. “Tenho dez trabalhadores, oito trabalham diretamente comigo, e todos da mesma família. São quatro irmãos, dois sobrinhos, o meu filho e o neto. É só família. Tem aqui e tem ali também, é Valadares também”, diz ele, apontando para a barraca vizinha, onde trabalha um de seus irmãos.


A gestão do negócio é pesada e exige um revezamento que alcança todos da família. “Olha, nada é fácil, tá?! Eu cedo, venho e abro a barraca às 5h30 e saio às 12h. Depois vem meu irmão que fica até às 17h da tarde, depois vem minha irmã, meu sobrinho e por fim, meu filho, que fica até meia-noite. É um trabalho que começa às 5h30 e vai até a meia-noite. Tudo tem um preço, mas é o que mantém a gente unido”, conta o comerciante.


Por ironia, Seu Valadares enfatiza sua preferência pelo inverno, onde as temperaturas possibilitam uma venda mais tranquila. “Prefiro o inverno ao verão. No verão as pessoas começam a subir, muita agitação. No inverno nós nos estabilizamos, o movimento é regular e temos tempo para conversar.” completa o vendedor.

A Sabedoria do “Carro Velho”


Aos 72 anos, a palavra “aposentadoria” parece não fazer parte do vocabulário de Raimundo. Ele encara a atividade física e mental do comércio como o combustível necessário para evitar o desgaste do tempo.


Ao ser perguntado se pretende se aposentar, Seu Valadares desconversa bem humorado e nega a possibilidade, “Parar jamais! Jamais. Nós somos igual a carro velho: parou o carro, aí depois ele não funciona. Nós também somos assim. Eu, pelo menos, sou. Antes do sol nascer eu já estou levantando. Enquanto eu tiver saúde, estarei na areia.” completou.


Seu Valadares se mostra como um pilar entre a Vitória do passado e a do futuro, atendendo clientes que ele viu crescer. “Com certeza eu fiz uma base de clientes. Eu tenho cliente que vinha com o filho pequeno, agora vem o filho dele com o neto. Isso para mim é uma terapia, porque todo mundo me conhece. Eu devo receber, no mínimo, umas 100 palavras de ‘bom dia’ por dia. Deus te abençoe… são 44 anos no lugar. Às vezes eu estou na cidade, alguém grita ‘Ei, Valadares!’ e eu nem conheço, mas respondo com prazer. É uma temporada muito grande de amizade.”

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