Ainda é cedo quando o primeiro ronco do motor corta as águas da Praia de Itapoã, em Vila Velha. O sol, ainda tímido, já informa que o dia será produtivo. O vai e vem na orla já é intenso e, ao fundo, como se observasse a vida da cidade acontecer, a Ilha Pituã se ergue sob o horizonte. Uma escultura natural que ao longo dos anos foi se tornando patrimônio dos canelas-verdes e visitantes.
A 300 metros da costa, a ilha desponta como uma das atividades turísticas da região. São pelo menos cinco piscinas naturais em seu entorno e uma mudança constante de cenários por conta da maré.
O verão aquece o turismo e as visitas chegam a dobrar nesses primeiros meses do ano, o que favorece o trabalho dos pescadores que fazem a travessia. Fábio Júnior Borges dos Santos, o Dudu, é um dos mais importantes personagens que compõem a cena e um dos pioneiros a fazer o percurso. Há mais de 13 anos nesse segmento, ele demonstra um conhecimento único sobre cada canto do pequeno paraíso. Sabedoria de quem é íntimo das ondas, do mar, das correntes e, claro, de cada pessoa que atravessa seu caminho e seu trajeto até lá.
Dudu é pescador, aprendeu desde novo com seu pai as manhas de uma boa pescaria. Os peixes foram, por anos, a principal fonte de renda da família. Mas, ele percebeu que o trajeto que fazia toda madrugada até as ilhas -Pituã e Itatiaia- podia render, especialmente no verão. Com seu barco de pesca e suas habilidades de condução, começou a levar grupos de visitantes até o interior da formação natural de rochas e areia. Logo o trajeto se popularizou, e há mais de uma década carrega a missão de mostrar um dos pontos turísticos de Vila Velha.
De nome Tupi, em homenagem aos Bem-te-vis que repousavam à região, a Ilha Pituã desperta curiosidade aos visitantes por se tratar de uma pequena formação rochosa, com vegetações rasteiras exuberantes e conchas coloridas que montam um verdadeiro mosaico à céu aberto. A faixa de areia refinada, branca como açúcar, desenha o entorno da pequena costa.
Era uma terça-feira de janeiro, a vida urbana seguia seu ritmo habitual, exceto naquele ponto específico da praia, onde, antes mesmo das 8h da manhã, o movimento de visitantes ansiosos para conhecer a ilha já estava intenso. Colete para lá, conversas para cá. No meio do grupo, Dudu, dando as últimas coordenadas aos jovens que estavam prestes a embarcar. Caixa de isopor, cadeiras de praia, sombrinhas e um bom lanchinho faziam parte da bagagem levada. O instrutor, atento, lembrou que os lixos deveriam ser recolhidos antes de sair, que não era permitido som alto e que era para evitarem pular das pedras. Informações valiosas para a vida e também para o meio ambiente.
No interior da Ilha não tem salva-vidas, todo cuidado é pouco, “qualquer emergência liguem nesse número aqui”, disse Dudu.
O barco é levado até à arrebentação, grupos de quatro pessoas entram para seguir o destino aguardado. É o máximo de tripulantes, além do barqueiro, que é permitido.
O vai e vem é intenso. Já se passaram das 10h e ainda há quem espere o barco voltar para também ser levado.
“O verão é um momento muito bom para gente. Dá pra juntar uma grana boa para passar os primeiros meses do ano sem sufoco. Porque quando acaba a temporada a gente volta para a pescaria”, detalha o barqueiro.
Itatiaia, sua irmã gêmea, de nome também Tupi, que significa pedra cheia de pontas, é um destino também muito visitado. Com extensões maiores que a da sua univitelina, Pituã, a Ilha Itatiaia abrange outras sete ilhotas ao redor e fica a 800 metros da costa da praia. É considerada pelo IBAMA uma guardiã de espécies de aves como andorinhas e garças-pesqueiras, mantenedoras do equilíbrio ecológico da região.
A estudante de Fisioterapia Mariana Pietralonga conta que, mesmo nascida e criada em Vila Velha, só visitou Pituã pela primeira vez em janeiro deste ano. Como quem quer receber o novo com aconchego, a pequena ilha faz da pouca faixa de areia que tem para abrigar os curiosos. “Eu gostei muito, lá é lindo. O local em si não é tão grande, mas deu para todo mundo sentar. A ilha tem vários lados, uns com piscinas naturais, muitas conchinhas…”, lembra Mariana.
Para além da beleza de Pituã, a canela-verde explica que a própria travessia já proporciona ao visitante um deslumbramento com o lugar: “O caminho é lindo também. Nós vimos tartarugas, águas-vivas… É uma experiência incrível!”
Já Manuela Falcon, estudante de Biomedicina, revela que é íntima da natureza local. Também nascida em Vila Velha, ela conta que visitou a ilha três vezes e se encantou com a paisagem cinematográfica: “Uma vez fui de barco e alguns amigos foram nadando. Eu acho muito legal, parece até coisa de filme a gente conseguir nadar até uma ilha. Lá tem piscina natural… é muito lindo. Eu amo Vila Velha por conta disso”.
Aos curiosos, aventureiros e visitantes que desejam conhecer os dois arquipélagos fiquem atentos: há pessoas cadastradas para realizar a travessia, Dudu é um deles, mas também existem outros grupos que, diariamente, se comprometem com a segurança e o lazer de qualquer pessoa que tenha o desejo de conhecer as belezas naturais das ilhas.
No fim do dia, quando o sol começa a descer no horizonte, pintando o mar de dourado e laranja, as ilhas voltam a assumir seus lugares de sentinela silenciosa da orla. Os últimos visitantes retornam, o barulho dos motores vai ficando distante e a maré, paciente, redesenha mais uma vez as piscinas naturais ao redor da ilhota. Fica a sensação de que o dia foi vivido como deve ser: com respeito, curiosidade e encantamento.
Saiba mais: como visitar as ilhas?
Para utilizar o serviço, não é necessário agendamento prévio. As travessias ocorrem diariamente, das 7h às 17h. Durante esse período, os visitantes podem permanecer na ilha e realizar o trajeto de ida e volta conforme a disponibilidade e a chegada das embarcações.
É importante ressaltar que é proibido descartar lixo nas encostas ou no mar, acender fogueiras e danificar os elementos naturais, medidas essenciais para a preservação ambiental da região.
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