Janeiro. É uma manhã de sexta-feira, na praia da Sereia, em Vila Velha. O sol, tímido, lutava por entre as nuvens que se formavam e carregavam uma típica chuva rápida de verão. No mar, a chuva não impedia quem priorizasse os treinos de natação, com turmas empolgadas em um ritmo agitado. Mas, hoje, é na areia da praia que se encontra a nossa personagem principal.
“Bom dia, bebê!”; “Bom dia, meu amor! Vai querer o que?”. É ali, no trecho final da praia, que uma presença se repete há décadas. Para quem frequenta a Sereia com alguma regularidade, é difícil não reconhecer a voz, o bom humor e a disposição de Valéria Dutra, conhecida por todos como a Baiana, que reconhece a clientela mais fiel pelo nome de cada um.
Presença constante desde 1996, aos 63 anos, entre cervejas, águas, refrigerantes e as empadas que viraram marca – as “gostosas”, como ela mesma anuncia – Valéria trabalha enquanto muitos descansam, sustenta uma rotina que atravessa temporadas e ajuda a manter o verão de pé.
“Eu comecei com 36 latinhas, 24 de cerveja e 12 de Coca-Cola. Não trouxe água mineral porque eu não sabia que vendia tão rápido. Eu desci gritando: ‘Vamos comprar cerveja na minha mão, que eu quero comprar um avião’. O avião eu não comprei não, mas cheguei a ter um caminhãozinho”, contou.
Ela afirma que o jeito diferenciado de vender os produtos também foi um ponto importante para chamar a atenção do público. “Em meia hora eu vendi a cerveja de salto alto, com um shortinho de ‘ver o útero’, aquele shortinho vermelho, com aquele olhão. Isso acabou me dando logo uma visibilidade. Porque o povo pensava ‘essa mulher de salto alto com essa caixa de cerveja, caixa pesada, né?’”, complementa.
Conexão Bahia X ES
Capixaba por nascimento e baiana de coração, o apelido “baiana” surgiu em homenagem à mãe, que saiu da Bahia aos 17 anos, grávida e solteira.
“Eu sou adotada por uma família italiana. Minha mãe veio para Colatina. Não tenho foto, não sei mais nada da vida dela. Fui adotada e criada em Governador Lindenberg. Passei toda a minha infância, fiz o magistério, lecionei, casei lá. Eu vim para cá depois de casada”, disse.
Uma vez educadora, sempre educadora
A formação no magistério nunca ficou restrita à sala de aula. Professora e mãe de quatro filhos, Valéria carrega a educação como prática no dia a dia.
“Tenho magistério. Porque o magistério há 40 ou 45 anos atrás era melhor do que a pedagogia hoje. Com o magistério, você alfabetizava, você lecionava. Se quisesse, podia se especializar em outras áreas. Eu cheguei a lecionar até no ensino médio, substituindo”, relembra.
Na praia, esse olhar de educadora aparece em gestos simples. Ela chama a atenção das crianças que brincam na areia, orienta sobre o lixo deixado para trás e insiste, quantas vezes forem necessárias, que o espaço é de todos. A aula acontece ali mesmo, entre uma venda e outra, sem formalidade, mas com constância.
Às vezes, até o megafone “entra em cena” e ela caminha pela praia com sacolinhas para os frequentadores: “Eu chego assim, entrego a sacolinha. Ensacola, cata e joga no lixinho. Ensacola, cata e joga no lixinho. Porque aí eu abranjo a mente das crianças. Porque criança é terra fértil. E além de florescer a sementinha, ser cultivada ali, ela ainda tem o poder de reeducar os pais”, diz.
A verdadeira “virada de chave”
Depois da sala de aula, o trabalho precisou mudar. Desempregada, desde que a empresa em que atuava como vendedora de livros fechou, foi em um dia comum na praia da Sereia, com a sede apertando e ninguém por perto para vender bebida, que a ideia surgiu. “Quer saber de uma coisa? Eu vou vender cerveja nessa praia”, lembra.
No outro dia, comprou uma caixa de isopor, separou as 36 latinhas com gelo e saiu de Campo Grande, em Cariacica, rumo à orla, enfrentando três ônibus para chegar até ali. Nos primeiros meses, o deslocamento fazia parte da jornada: caixas no corredor dos ônibus, motoristas ajudando a descer a mercadoria, idas e vindas que acompanhavam o aumento da demanda.
Naquela época, os filhos já não eram pequenos. Os mais velhos já eram adolescentes e o caçula tinha por volta dos oito anos. Foi o trabalho na praia que permitiu que Valéria pudesse terminar de criá-los. Com o apoio da mãe adotiva, assumiu o sustento da casa. “Virei o provedor, virei o pai”, conta.
“Uns oito anos depois que eu comecei, a prefeitura começou a liberar os carrinhos, ou melhor, os isopores, que não podia, tinha que andar. Eu deixava uma caixinha de isopor com os meus meninos, vigiando, não deixava eles venderem. Só vigiando a caixa de cerveja e eu andando com a caixinha menor. Depois a prefeitura foi liberando os carrinhos. E fui ficando conhecida, conhecida, até que os meus meninos foram seguindo a vida”, relembra.
Com o tempo, Baiana foi transformando atenção em permanência. Em 2002, depois de provar as empadas feitas por um colega, também vendedor, decidiu vendê-las. A primeira mordida já veio com o nome: “Já sei o nome que vou dar a elas: as gostosas”, conta.
Em pouco mais de uma hora, as 40 empadas se esgotaram. Vieram outras levas, filas e dias de venda intensa, como a terça-feira de carnaval em que ela vendeu quase 500 unidades. Os sabores eram dos mais variados, dos tradicionais como os de frango, aos doces. Um deles foi, inclusive, criado em sua homenagem: frango caipira com pimenta-malagueta, apelidado de “baianinha”.
O salto alto e o shortinho que, no início, funcionaram como linguagem, se transformaram, também, em símbolos: o tamanco estampado no carrinho como marca registrada. Depois, com os anos que passaram, o que permaneceu foi outra coisa, a conversa, a memória, o reconhecimento.
Do trabalho na areia, vieram também as condições para garantir a formação do filho mais novo. Primeiro, a faculdade de Administração. Depois, a decisão de seguir para o seminário para virar padre, onde se formou bacharel em Filosofia. Mas, atualmente, cursa a reta final do curso de Psicologia.
Dos quatro filhos, dois já não estão vivos. Entretanto, Valéria fala deles com a mesma serenidade com que fala da vida: com fé. Os que ficaram seguiram adiante, cada um à sua maneira. “Eu gostaria que todos tivessem feito faculdade. Mas a gente pare os filhos, não pare as escolhas. As escolhas são deles. Mas o meu mais velho também está bem, montou uma empresa para ele de transporte executivo. E os outros dois cumpriram a missão e acredito que eles estejam com o papai do céu, fizeram mal só para eles mesmos”, diz.
Hoje, Valéria, ou melhor, Baiana, segue na praia da Sereia, ocupando o mesmo trecho de areia onde construiu trabalho, vínculos e memória. Entre uma venda e outra, orienta, conversa, observa. O verão passa, os rostos mudam, mas a presença permanece. Valéria Dutra é dessas pessoas que, mesmo sem perceber, fazem do dia de quem passa um pouco mais atento, um pouco mais humano.
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