É fim de janeiro. A areia já não está completamente tomada, mas o calor anuncia que o verão segue firme. Entre cadeiras, guarda-sóis e caminhadas apressadas, um homem atravessa a orla em passos constantes, carregando bolsas penduradas nos braços e alguns bonés expostos com cuidado, em uma segunda-feira de sol aberto na Praia de Camburi, em Vitória.
“Bom dia”, ele diz, quase sempre antes de qualquer pergunta. José Raimundo de Jesus tem 68 anos e há três décadas repete o mesmo trajeto: vai e vem pela areia, oferecendo o que ele mesmo produz. Para quem passa com frequência por Camburi nessa época do ano, a presença já é conhecida.
Baiano de nascimento, José chega ao Espírito Santo todos os verões para trabalhar. “Todo ano eu venho pra cá. Depois do Carnaval eu volto”, conta. A rotina se repete há cerca de 30 anos, tempo suficiente para transformar a praia em espaço de trabalho, convivência e sobrevivência.
José Raimundo era carpinteiro
Antes disso, a vida era outra. “Quando eu era mais novo, eu trabalhava em obra. Era carpinteiro”, lembra. O peso do serviço, porém, começou a cobrar o corpo. “Tava muito pesado pra mim. Aqui é melhor. Aqui eu estou andando, estou me divertindo”, diz, com um sorriso rápido, enquanto ajusta uma das bolsas no braço.
O trabalho atual exige esforço, mas em outro ritmo. José vende bolsas e bonés feitos de taboa, uma planta que nasce em áreas alagadas. A matéria-prima vem da água. “A gente tira de dentro da água, bota pra secar, pra depois fazer a palha”, explica. O processo é demorado e totalmente manual. Cada peça carrega horas de preparo antes de chegar à areia.

A troca vai além da venda
Durante o verão, José Raimundo garante o sustento de todo o resto do ano. Por isso, quando a estação não corresponde às expectativas, a preocupação aparece. “Esse verão foi fraco”, diz, sem rodeios. A frase carrega o peso de quem sabe que meses mais apertados podem vir pela frente.
Mesmo assim, José segue. Caminha, conversa, observa. Conhece gente de todo lugar. “Converso muito. Faço amizade”, conta. A troca vai além da venda. Há quem pare só para olhar, perguntar, ouvir a história por trás das bolsas trançadas à mão.
Curiosamente, é fora da Bahia que o trabalho encontra mais reconhecimento. “Lá onde vai turista, não compensa trabalhar não. Ninguém dá valor à minha mercadoria. Aqui é melhor”, afirma. O motivo, ele mesmo diz não entender. Mas sente na prática a diferença.
Aos 68 anos, ainda não está aposentado. “Ainda vou me aposentar”, diz, com fé. Até lá, segue atravessando verões, equilibrando mercadoria e esperança nos braços. Entre a água de onde nasce a taboa e a areia quente de Camburi, José Raimundo sustenta mais do que o próprio ano: sustenta a escolha de viver de um trabalho que respeita seu tempo, seu corpo e sua história.
Ouça a entrevista completa!





