Pituã

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

De Feu Rosa a Miami: a trajetória de Fernanda Ferreira e a força do crochê

Conheça a história da crocheteira capixaba que fez da tendência um empreendimento

“Quando eu quero criar uma peça, eu pego um pedacinho daqui, um pedacinho dali e vou montando para surgir o produto final.” É assim que funciona o processo criativo da crocheteira Fernanda Ferreira, de 39 anos, natural de Feu Rosa, na Serra.

A artesã conheceu a sua paixão aos oito anos de idade, com uma vizinha que a ensinou a crochetar. Ela, muito curiosa, observava com afinco as mãos da sua “professora” e logo, fez um pedido, queria aprender aquele artesanato. E de correntinha em correntinha, o ponto mais básico do crochê, ela foi se aperfeiçoando, até confeccionar a sua primeira peça: um biquíni.

Esse foi o pontapé. Ela começou a produzir roupas para si mesma, depois para as amigas e, quando percebeu, já havia recebido muitos pedidos.

Seu sucesso como crocheteira começou quando uma amiga publicou nas redes sociais a foto de um de seus modelos. Depois, Fernanda enviou um vestido para a apresentadora, Ana Maria Braga, que expôs a peça ao vivo.

Fernanda registrou o momento em que sua peça apareceu na TV em um quadro exposto no seu estúdio.

Mas o auge mesmo veio quando a empreendedora foi convidada para trabalhar diretamente em Miami com produtoras de peças internacionais, criando diferentes vestidos, saias e blusas em crochê. “As meninas de Miami ficaram doidas porque meu trabalho tem muita cor.”

Crochetar e empreender

O sangue empreendedor já estava na família. Desde os dez anos, Fernanda trabalha na feira com os pais, vendendo condimentos. O crochê veio como uma oportunidade de começar outro negócio, aproveitando o novo conhecimento e a experiência com as vendas. 

A partir daí nasceu a Aloha Crochetaria. O nome faz jus a Fernanda, que exala a mesma energia. “Aloha é um cumprimento Havaiano, que dá boas-vindas e transmite paz e alegria para as pessoas. Eu gosto de transmitir paz, de compartilhar, de alegrar as pessoas, de estar em um ambiente legal.”

Seu estúdio, localizado em Feu Rosa, – um espaço com muitas peças coloridas e brilhosas – reflete seus trabalhos e sua produção.

Criação de peças

Na prática, a criação do crochê é como montar um quebra-cabeça. O trabalho começa com o contato com o cliente e muita pesquisa. A partir disso, ela tira a medida, escolhe modelo, cor, linha, textura, desenha o croqui e junta todas as partes para nascer a peça-chave. 

“Peço ao cliente para mandar as medidas. Se ele não tiver fita métrica em casa, pode vir até o ateliê. Depois vem o passo da escolha de cores, das linhas. A linha para confecção da peça é muito importante, porque toda linha tem uma espessura, um caimento, uma textura.”

Um vestido com mais caimento, por exemplo, precisa de uma linha 100% algodão; em roupas mais estruturadas é preciso uma linha mercerizada, mais resistente. No processo de criação, Fernanda utiliza de sua criatividade e de muita pesquisa sobre modelagem, material e tendência.

Esse processo, que já é trabalhoso, se torna ainda mais quando Fernanda recebe muitos pedidos. Para isso, ela conta com outras crocheteiras, amigas que, assim como ela, se encontraram nesse meio e auxiliam na produção da Aloha. 

Muitas vezes, o serviço terceirizado é feito por suas alunas, que participam do curso ministrado por Fernanda na Secretaria de Mulheres da Serra. Para ela, ensinar o crochê é ensinar que, além de um hobby, ele pode ser uma fonte de renda. Mães atípicas e mulheres em situações de violência doméstica e patrimonial enxergam essa nova alternativa no empreendedorismo. 

As linhas também curam e ajudam a cuidar da mente e do corpo. A arte de crochetar alivia sentimentos de estresse e ocupa o lugar de pensamentos e sensações negativas.

Em épocas quando as encomendas estão a todo vapor, ou seja, na alta temporada, as crocheteiras ganham destaque e uma nova ocupação, ao serem convidadas por Fernanda para ajudar na produção da Aloha.

Tendências de verão

Final do ano, verão, Carnaval, épocas em que o crochê ganha muito espaço devido a influência de criadores de conteúdo. Biquínis, saídas e bolsas de praia, blusas, vestidos e saias brilhosas e coloridas, tudo vira tendência nos dias mais quentes do ano. Há, inclusive, linhas especiais que não absorvem a água e mantêm as roupas de banho leves e confortáveis.

Mas as confecções, mesmo que em menor escala, perduram ao longo do ano. No inverno, Fernanda produz casacos, cachecóis e muitos acessórios, encontrando uma alternativa para as suas vendas. “Há épocas e épocas no crochê. Mas em todo o ano, o crochê é bem vendável, bem comercializado”, afirma.

Pensando nas mudanças das estações, ela também se preocupa com o meio ambiente e se reinventa a partir da moda sustentável. Utilizando peças antigas próprias ou de brechós, ela estiliza o tecido e, com o crochê, o transforma em uma nova roupa, o upcycling

É estudando, conhecendo tendências e técnicas, que Fernanda faz da sua marca uma referência para o crochê nacional e internacional. 

Reconhecimentos

Após muito trabalho, Fernanda recebeu o apoio e o reconhecimento de sua cidade conquistando o Título de Cidadã Ilustre, da Câmara Municipal da Serra. Ela se sente orgulhosa, e, até hoje, mostra o título em seu estúdio.

A artesã participou também do ExpoFavela, feira que reúne empreendedores, investidores e marcas de inovação. “Eu fui sem saber o que iria acontecer, mas tinha certeza que era uma boa oportunidade de expor as minhas criações. No fim, fui selecionada na feira estadual para participar da nacional.”

Fernanda ainda não costurou o seu último ponto e segue usando suas linhas e fortalecendo suas correntinhas. Além das encomendas, ela continua trabalhando na feira com os pais e seu marido, dá aulas para novas artesãs, trabalha na prefeitura, é atriz e modelo nas horas vagas e concilia tudo cuidando de sua cadela Ana Catarina, sua fiel companheira. 

Veja a entrevista completa!

Veja Também

Verão e reclusão

O desejo de isolamento que nada contra a maré do lazer nos trópicos.

A lenda do coco de Camburi

Com 44 anos de atividade, Valadares é um dos comerciantes mais antigos da orla de Vitória

O Bom Cinema

Entre o café da manhã e o ritual da sala escura, Juninho faz do Cine Jardins um território de resistência contra o apagamento dos sentidos e a pressa do mundo.

A engenharia do céu e do mar 

Instrutor transformou uma paixão em fonte de renda, encontrando um equilíbrio entre a prancha e a vela.