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Seu José: o caminho que levou um agricultor de quase 60 anos a retornar à escola

Após trocar os estudos pelo trabalho na infância, agricultor capixaba vence o analfabetismo ao lado da esposa e filho.

Clima árido, comum no município de São Gabriel da Palha, o qual tem como principal motor econômico plantações que se dividem entre café, banana e pimenta. Apesar de dentro do mesmo município, a região urbana da cidade é bem pequena e afastada do distrito Córrego da Lapa, lar da escola de ensino infantil e adulto de mesmo nome e de José, agricultor de pimenta e aluno prestes a se formar.

Nascido no município do interior do Espírito Santo, José Pereira da Silva é um homem forte, de cabelos grisalhos e camisa de botão semiaberta, a qual sempre utiliza; sua pele queimada pelo sol carrega marcas de seu trabalho como agricultor, ofício esse que iniciou bem cedo em sua vida, aos 16 anos. Contudo, sua relação com o trabalho e, consequentemente, sua saída da escola se deu quando mais novo.

Aos oito anos de idade, José ingressou no primeiro ano do ensino fundamental, onde apenas aprendeu a escrever seu nome. Meses depois, contudo, seu pai abandonou a família, deixando sua esposa, Maria da Conceição, mãe de José, com a responsabilidade de criar oito filhos sozinha. Diante de tais condições, o trabalho tornou-se obrigatório: o menino deixou o papel e o lápis para vender quebra-queixo onde, ironicamente, seu principal ponto de venda era a porta da escola.

“Tinha muita vontade de estudar, mas a prioridade era comer”, afirmou José que, pouco tempo após ter que lidar com o abandono de seu pai, sofreu mais uma vez, agora com o falecimento de sua mãe. Infelizmente, o ocorrido levou José a tentar assumir a responsabilidade pelos seus irmãos e irmãs, o que, aos 16 anos, mostrou-se inviável naquela conjuntura, obrigando-o a dispersar a família por diferentes lares: as irmãs foram destinadas ao trabalho doméstico e os irmãos, à lavoura.

Dessa forma, José dedicou-se ao campo; foram 21 anos como vaqueiro e outros 30 na lavoura. Esse longo intervalo afastou-o cada vez mais dos livros.

Ponto de virada

A semente da mudança em Córrego da Lapa não brotou do acaso; na verdade, surgiu através da educação. Ana Rotta, professora da Escola Córrego da Lapa, que até então era exclusivamente infantil, percebeu uma carência de educação formal muito forte na comunidade. Ana era amiga de Franciele Pereira, nora de José, e deu a ideia de juntar assinaturas da comunidade, solicitando a instalação de uma unidade EJA na escola; se o papel transbordasse assinaturas, o Estado teria que ouvir.

Em 2018, sob a tutoria da professora Marina Ferreira, o giz finalmente riscou o quadro para a primeira turma de alfabetização da EJA. A turma tinha como alunos José, sua esposa Maria, seu filho João e mais 20 alunos com idades entre 25 e 60 anos.

A rotina de José era uma coreografia de resistência que começava antes do sol. Às 5h da manhã, o som do café coando era o primeiro sinal de um dia que se dividia entre o cabo da enxada e a ponta do lápis. Contudo, o suor e a exaustão da lavoura de pimenta, que escorria sob o sol a pino, muitas vezes quase foram o suficiente para apagar a chama que brilhava na sala de aula à noite.

“Pensei várias vezes em parar. O corpo pedia descanso, mas minha esposa me dava a força que eu precisava”, recorda José.

Na mesa de casa, o estudo era um ato de amor compartilhado. Maria, embora também semianalfabeta, possuía a sensibilidade aguçada para a Língua Portuguesa, enquanto José encontrava nos números e na Matemática a lógica que já aplicava na contagem das sacas. Um era o suporte do outro: onde ele tropeçava nas letras, ela lhe estendia a mão; onde ela se perdia nos cálculos, ele lhe servia de guia.

“Não vamos parar, estamos tão perto de nos formar”, insistia Maria, transformando o cansaço em combustível.

Com muito esforço, José conseguiu se formar no primeiro segmento EJA, que foca no ciclo de alfabetização do aluno, similar ao ensino fundamental 1. E, em 2020, a turma seguiu: solicitou a instalação do segundo segmento à Secretaria de Educação do estado e obteve êxito.

Contudo, logo após a abertura da turma, o mundo se fechava em silêncio pela pandemia. A turma, composta por muitos idosos como seu José, teve que parar os encontros por um tempo. Foi através da articulação da pedagoga Eriane Costa de Sousa e de Maria Pereira, esposa de José, que os estudantes puderam continuar a ter algum amparo. As aulas eram feitas com pequenos encontros na casa de cada estudante.

“Fizemos um esforço muito grande para não perder o engajamento da turma”, explica a pedagoga.

Apesar das dificuldades, os esforços deram certo; a turma conseguiu se formar no segundo segmento. E surgiu uma dúvida: por que parar? Foi então que a comunidade, mais uma vez, se uniu para solicitar a instalação de um curso técnico em agroecologia.

Mais uma vez, conseguiram sucesso. As aulas eram voltadas ao conhecimento técnico relativo ao conhecimento prático que os alunos possuem.

“O conhecimento técnico agrega ao nosso conhecimento prático. Aprendi principalmente a utilizar os agrotóxicos de forma correta, com equipamentos de proteção”, afirma José.

Em 2024, seu José, na época com 64 anos, sua esposa Maria, seu filho João e mais 20 alunos com idades entre 25 e 60 anos formaram-se técnicos em agroecologia.

Hoje, a imagem do homem de camisa entreaberta e pele queimada carrega um novo brilho. José não apenas aprendeu a ler a terra, mas a decifrar a ciência por trás dela, formando-se ao lado da esposa e dos filhos. Ao olhar para trás, ele não vê apenas tristeza, mas o legado de um homem que quebrou o ciclo do abandono.

“Dei à minha família a atenção que meu pai nunca nos deu”, afirma com o peito estufado de uma riqueza que não se guarda em bancos. “Hoje sou rico, não de dinheiro, mas de poder proporcionar qualidade de vida e estudos para os meus.”

Veja a entrevista completa!

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