Quem passa pela secretaria dos cursos de Comunicação da Ufes provavelmente já encontrou Robinho antes mesmo de saber seu nome. Entre salas, documentos, equipamentos e reuniões, ele é uma presença constante no cotidiano do departamento. Há quinze anos, ocupa oficialmente o cargo de secretário. Na prática, acompanha de perto as transformações de gerações inteiras de estudantes.
A relação com o lugar, porém, começou muito antes do concurso público. Robinho também foi aluno de Comunicação Social na universidade, período em que se envolveu com o movimento estudantil. Fez parte do Balão Mágico, coletivo formado por estudantes de diferentes cursos que ocupavam o campus com debates, performances e intervenções. As reuniões nasciam de conversas longas, trocas de ideias e questionamentos sobre a própria universidade. Muitas das discussões ajudaram a impulsionar a busca por mais espaços de prática dentro da Comunicação, especialmente nas áreas de audiovisual, fotografia e rádio universitária.
A trajetória acadêmica foi interrompida quando Robinho descobriu que seria pai e precisou deixar a universidade para garantir sustento à filha que estava chegando. “Eu tinha uma criança pra sustentar. Pagar escola, comida, trazer dignidade pra minha filha.”
Anos depois, com a filha criada, o caminho de volta apareceu por outra porta. Ele foi aprovado em concurso público e escolheu retornar justamente ao lugar com o qual já tinha uma ligação profunda. Desde então, nunca mais saiu. “Nunca pensei em sair. Isso aqui é minha casa.” E acompanhar gerações de estudantes é o que dá sentido à rotina. “Ver os alunos chegarem de um jeito e saírem quatro anos depois transformados dá uma energia enorme.”
Por trás da mesa da secretaria existe um trabalho silencioso que sustenta o cotidiano do departamento. “Gerenciamos espaço físico, manutenção, documentos, processos, atendimento a alunos e professores… organizamos reuniões, materiais e equipamentos.” É o tipo de engrenagem que mantém tudo funcionando sem aparecer nos holofotes.
Quando o expediente do secretário termina, o campus muda de papel: “A Ufes é também meu palco de fotografia, foi ela que me salvou durante a pandemia. Sou um sonhador que busca imagens que transmitem sentimento e paz.”



Fora da universidade, outras camadas aparecem e revelam um Robinho menos institucional e mais intuitivo. Ele se descreve como umbandista, alguém que enxerga espiritualidade como prática cotidiana e forma de conexão com o mundo. Os colares e anéis que usa não são apenas acessórios, mas símbolos de proteção e pertencimento, pequenas narrativas que carregam significado no corpo. Em casa, a arte ocupa a mesa, o tempo livre e a parceria com a esposa. Juntos, produzem esculturas, anéis e colares, num processo que mistura criação manual, experimentação e afeto.
A trilha sonora dessa rotina vem do rock dos anos 60 e 70, que atravessa o ambiente doméstico enquanto as peças ganham forma. É um universo onde música, espiritualidade e artesanato se encontram sem hierarquia, como se tudo fizesse parte de uma mesma linguagem. A criação não aparece como hobby ocasional, mas como continuidade de um olhar curioso que se recusa a encerrar quando o expediente termina.



Esse lado artístico dialoga diretamente com a fotografia que ele produz pelo campus e fora dele. O gesto é o mesmo: observar, buscar beleza em detalhes, transformar o cotidiano em algo sensível. Se durante o dia ele organiza processos e documentos, à noite e nos fins de semana organiza imagens, símbolos e objetos. No fim, parece existir uma linha invisível que conecta o secretário e o artista: a vontade constante de descobrir algo novo todos os dias.
No fim das contas, talvez os quinze anos não caibam apenas na secretaria. Eles cabem em tudo o que ele construiu dentro e fora dela.
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